10-098-23-MONTEIRO-HTML

Revista Electrónica Educare (Educare Electronic Journal) EISSN: 1409-4258 Vol. 29(1) ENERO-ABRIL, 2025: 1-19

doi: https://doi.org/10.15359/ree.29-1.18579

https://www.revistas.una.ac.cr/index.php/educare

educare@una.ac.cr

[Cierre de edición el 30 de abril del 2025]


Adaptação e validação da escala European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire numa amostra de adolescentes portugueses

Adaptation and validation of the European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire scale in a sample of Portuguese adolescents

Adaptación y validación de la escala del European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire en una muestra de adolescentes portugueses

Ana Paula Monteiro

Centro de Investigação e Intervenção Educativas

https://ror.org/05qat3p53

Porto, Portugal

apmonteiro@utad.pt

https://orcid.org/0000-0002-4082-1474

Daniela Fonseca

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

https://ror.org/03qc8vh97

Departamento de Educação e Psicologia

Vila Real, Portugal

danielamendesfonseca1@gmail.com

https://orcid.org/0000-0002-3906-7697

Elisete Correia

Centro de Matemática Computacional e Estocástica

https://ror.org/051fzrb60

Lisboa, Portugal

ecorreia@utad.pt

https://orcid.org/0000-0002-1121-2792

Recibido • Received • Recebido: 13 / 06 / 2023

Corregido • Revised • Revisado: 30 / 03 / 2025

Aceptado • Accepted • Aprovado: 28 / 04 / 2025

Resumo:

Introdução. O cyberbullying acarreta consequências negativas para os envolvidos e para o ambiente escolar, sendo importante a existência de instrumentos que ajudem a detectar e compreender este fenômeno. Objetivo. A presente investigação pretendeu traduzir e adaptar, para a população portuguesa, a escala European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ), estudando as suas propriedades psicométricas. Metodologia. Estudo de caráter quantitativo e transversal, no qual participaram 440 alunos do ensino secundário de escolas do norte e centro de Portugal. Resultado. A análise fatorial confirmatória revelou bons índices de ajustamento, permitindo confirmar o modelo fatorial do instrumento original constituído por dois fatores correlacionados entre si, designadamente a cybervítimação e a cyberagressão. Todos os fatores revelaram boa consistência interna. Conclusão. A versão portuguesa do ECIPQ apresenta boas características psicométricas, que legitimam a sua utilização na investigação e na intervenção psicopedagógica.

Palavras-chave: Cyberbullying; cybervítimação; cyberagressão; escala.

ODS: ODS 4; educação de qualidade; ambientes escolares; ODS 16; Paz, justicia e instituições eficazes; vitimização por cyberbullying; bullying na escola.

Abstract:

Introduction. Cyberbullying has negative consequences for those involved and for the school environment, and it is important to have instruments that help detect and understand this phenomenon. Objective. This research aimed to translate and adapt, for the Portuguese population, the European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ), studying its psychometric properties. Methodology. Quantitative and cross-sectional study in which 440 secondary school students from schools in the north and center of Portugal participated. Result. The confirmatory factor analysis revealed good adjustment indexes allowing to confirm the factorial model of the original instrument consisting of two factors correlated with each other, namely cybervictimization and cyberaggression. The factors showed good internal consistency. Conclusion. The Portuguese version of the ECIPQ presents good psychometric characteristics, which legitimize its use in research and psychopedagogical intervention.

Keywords: Cyberbullying; cybervictimization; cyberaggression; scale.

SDG: SDG 4; quality education; school environments; SDG 16; Peace, justice and strong institutions; cyberbullying victimization; bullying at school.

Resumen:

Introducción. El cyberbullying tiene consecuencias negativas para las personas involucradas y para el entorno escolar, y es importante contar con instrumentos que ayuden a detectar y comprender este fenómeno. Objetivo. La presente investigación tuvo como objetivo traducir y adaptar, para la población portuguesa, la escala European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ), para lo cual se estudian sus propiedades psicométricas. Metodología. Se trata de un estudio cuantitativo y transversal en el que participaron 440 estudiantes de secundaria de escuelas del norte y centro de Portugal. Resultado. El análisis factorial confirmatorio reveló buenos índices de ajuste, ello permite confirmar el modelo factorial del instrumento original compuesto por dos factores correlacionados entre sí, a saber, la cibervictimización y la ciberagresión. Todos los factores revelaron una buena consistencia interna. Conclusión. La versión portuguesa del ECIPQ presenta buenas características psicométricas, que legitiman su uso en investigación e intervención psicopedagógica.

Palabras claves: Cyberbullying; cibervictimización; ciberagresión; escala.

ODS: ODS 4; educación de calidad; entornos escolares; ODS 16; Paz, Justicia e instituciones sólidas; victimización por ciberacoso; acoso escolar.

Introdução

O cyberbullying pode ser definido como um ato intencional agressivo praticado por um grupo ou um indivíduo, através de formas eletrónicas de contato, de forma repetida e ao longo do tempo contra uma vítima que não pode se defender facilmente (Relva et al., 2022). Relativamente, aos intervenientes ou atores do cyberbullying tal como acontece no bullying tradicional podemos identificar: as vítimas ou cybervítimas que são crianças/jovens que estão em exposição contínua e repetida a ameaças e humilhações por parte dos agressores; os agressores (cyberagressores) são aqueles que têm comportamentos agressivos, negativos e hostis, direcionados a um alvo, com o objetivo de provocar, humilhar ou excluir a vítima; as vítimas/agressores (cybervítimas/cyberagressores) que se definem por um grupo que tanto experiência como exerce o cyberbullying e as testemunhas (observadores) deste fenómeno (Wang, 2021).

A prevalência de cyberbullying torna-se difícil de quantificar de forma rigorosa devido à sua ambiguidade, à diversidade de métodos de obtenção de dados, de desenho de pesquisa e no tamanho da amostra (Olweus & Limber, 2018; Relva et al., 2022). Não obstante esta dificuldade, os dados mostram que o cyberbullying constitui um fenómeno com taxas de prevalência crescentes em diversos países (Buelga, Cava et al., 2015; Matos et al., 2018; Ponte & Batista, 2019; Relva et al., 2022), dado estar estreitamente relacionado à generalização das tecnologias móveis, que representam atualmente a base de grande parte do processo comunicativo (Mishna et al., 2005). De referir que, em Portugal, o relatório EU Kids Online (Ponte & Batista, 2019), que apresenta dados de 1974 participantes entre os 9 e 17 anos de idade indicou predominância do cyberbullying sobre o bullying. “As vítimas deste tipo de agressão indicaram que esta ocorre várias vezes por mês, ... através de chamadas, mensagens ... ou por outra via ... [e] uma em cada seis crianças e jovens que experienciaram cyberbullying (16%) teve de fazer coisas que não queria fazer” (Ponte & Batista, 2019, pp. 33). Isto sugere que a internet tem características específicas, nomeadamente o anonimato e a facilidade de acesso às vítimas que podem conduzir a uma maior prática de comportamentos violentos (Buelga, Iranzo et al., 2015), o que pode explicar o maior envolvimento dos adolescentes em comportamentos de cyberbullying (Buelga et al., 2017).

O cyberbullying acarreta graves consequências nos alunos implicados nomeadamente afeta a autoestima e a autoconfiança, o que pode desencadear problemas académicos, dificulta o estabelecimento de relações interpessoais e o ajuste psicossocial (Menesini & Spiel, 2012). Pode ainda, levar a problemas de comportamento e ao aparecimento de sintomas de depressão, tanto em vítimas como em agressores (Chang et al., 2015) sendo o fenómeno considerado um marco da delinquência juvenil (Hou, 2023; Moffitt & Caspi, 2001).

As vítimas de cyberbullying vivem uma experiência traumática com danos psicológicos muitas vezes irreversíveis como introversão, baixa autoestima, sentimentos de pânico e insegurança, angústia, depressão, insucesso escolar, e em casos mais extremos, pode levar ao suicídio (Bai et al., 2021; Hinduja & Patchin, 2010; Hou, 2023). São geralmente mais deprimidas, isoladas, ansiosas e inseguras, mas também cautelosas e sensíveis (Ostrov & Kamper, 2015).

Já no que respeita ao agressor, as consequências podem apresentar-se igualmente a curto e longo prazo e a várias dimensões, sendo que os agressores, na vida adulta, terão mais probabilidades de apresentar comportamentos desviantes e delinquentes (Hou, 2023). Estudos sugerem que a cyberagressão faz parte de um padrão maior de comportamento caracterizada por baixa empatia (Brewer & Kerslake, 2015) e falta de autocontrolo (Vazsonyi et al., 2012).

Fazendo referência aos observadores, pode dizer-se que estes podem sentir sentimentos de impotência para intervir, mantendo-se indiferentes à situação o que se vai refletir no seu desenvolvimento social e moral (Knauf et al., 2018), uma vez que para eles valores de solidariedade e cooperação são pouco evidentes. No entanto, há outros observadores que, sendo mais sensíveis, podem apresentar sofrimento e incompreensão pelo sucedido. Estes indivíduos, podem sentir perda de respeito por eles próprios, receando que as suas falhas sejam reconhecidas pelos outros (Hazler, 1996).

O cyberbullying tem sido descrito na literatura como uma problemática que pode ser mais grave que o bullying tradicional devido as características da internet e com consequências mais negativas para as vítimas. Na comparação entre dois fenómenos, os impactos negativos do cyberbullying tendem a ser mais gravosos, traduzindo-se em maior absenteísmo e baixo desempenho escolar, constituindo-se como um forte preditor de consequências negativas na saúde e no bem-estar dos adolescentes (Carvalho et al., 2021; Relva et al., 2022).

Tendo em considerar as graves repercussões do cyberbullying para todos os envolvidos, consideramos relevante a existência de instrumentos que ajudem a identificar e compreender, de forma rigorosa, esta problemática bem como a sua dimensão. Em virtude da ciberagressão ocorrer frequentemente em ambiente virtual privado, a sua detecção por observação direta pelos professores ou familiares é tendencialmente complexa. Além disso, o recurso a entrevistas ou grupos focais com adolescentes para detetar casos de agressão cibernética pode não ser eficaz, uma vez que estes podem não ter consciência dos incidentes ou ter vergonha e/ou medo de os contar ou admitir (Álvarez-García et al., 2016). Assim, pode ser mais adequado a aplicação de questionários de autorrelato anónimos em que os adolescentes são solicitados a responder em que medida perpetuam ou são vítimas de ciberagressões (Álvarez-García et al., 2016).

Tendo em consideração o exposto, esta investigação tem como propósito adaptar para a população portuguesa a escala European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire – ECIPQ (Questionário Europeu do Projeto de Intervenção sobre Cyberbullying), através do estudo das suas propriedades psicométricas.

A escala European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire foi desenvolvida no âmbito do projeto europeu Cyberbullying in Adolescence: Investigation and Intervention in Six European Countries – ECIPQ (Brighi et al., 2012) tendo sido posteriormente validada em vários países europeus com bons resultados psicométricos (del Rey et al., 2015).

Ortega Ruiz et al. (2016) procederam à validação em Espanha do European Bullying Intervention Project Questionnaire (EBIPQ) e do European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ) que avaliam o envolvimento dos estudantes no bullying e no cyberbullying, respetivamente. Os instrumentos foram administrados a 792 estudantes do ensino secundário e foram obtidos bons resultados de ajuste e boas propriedades psicométricas. A realização de um modelo de equações estruturais avaliou a simultaneidade e as relações entre os dois fenómenos, encontrando a influência do bullying no cyberbullying, mas não a relação inversa. Por falta de instrumentos validados para países da América Latina e à necessidade de instrumentos reconhecidos internacionalmente que incorporem quer a cybervitimização quer a cyberagressão, o principal objetivo do estudo de Herrera-López et al. (2017), foi validar a escala ECIPQ na Colômbia. O segundo objetivo do estudo era comparar a prevalência de envolvimento no cyberbullying nos dois países (Colômbia e Espanha), recorrendo a uma amostra de 3830 (1931 colombianos e 1899 espanhóis) estudantes de ambos os sexos com idades compreendidas entre os 10 e os 19 anos. Os dados obtidos confirmaram a robustez do instrumento para avaliar conjuntamente a cyberagressão e a cybervitimização. Os autores verificaram ainda que os estudantes colombianos apresentavam menor implicação nos papéis de cyberbullying comparativamente aos estudantes espanhóis.

Recentemente, a escala foi adaptada para adolescentes chineses tido sido dimensionada para 14 itens com base na sua relevância e adequação à cultura chinesa (Zhu et al., 2022). Os resultados obtidos revelaram boas propriedades psicométricas da escala para avaliar quer a cibervitimização, quer a ciberagressão. A escala tem sido utilizada em diferentes investigações (del Rey et al., 2016; Sivabalan et al., 2020) verificando-se propriedades psicométricas adequadas, no que diz respeito à consistência interna, tanto para a escala total como para cada uma das suas dimensões.

Este instrumento reflete as várias manifestações do cyberbullying e reconhece a estrutura dinâmica do fenómeno, medindo as suas duas principais dimensões: agressão e vitimização. Também não faz distinção entre dispositivos digitais (smartphones e computadores) e inclui critérios de repetição e apesar de implicitamente o desequilíbrio de poder, pois alguns itens implicam o domínio da tecnologia por parte do agressor e a falta de medidas de segurança das vítimas (del Rey et al., 2015).

Apesar das potencialidades deste instrumento e da escassez de escalas para avaliar este fenómeno em Portugal, não foi ainda realizado qualquer estudo de validação neste país. Pretende-se assim, com o presente estudo, obter conhecimento sobre as características psicométricas do European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire – ECIPQ (Questionário Europeu do Projeto de Intervenção sobre Cyberbullying), numa amostra de adolescentes portugueses, tendo por objetivo principal a adaptação e validação deste instrumento para a população portuguesa.

Metodologia

Tipo de investigação

A presente investigação consiste num estudo quantitativo, dada a natureza numérica dos dados, sendo ainda um estudo de caráter transversal, uma vez que os dados serão recolhidos num só momento (Hernández Sampieri et al., 2014).

Participantes

A amostra foi constituída por 440 alunos do ensino secundário de escolas do norte e centro de Portugal, com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos (M=16.5; DP= 1.07), dos quais 282 pertencem ao sexo feminino (64.1%) e 158 (35.9%) ao sexo masculino. Quanto à escolaridade dos 438 dos alunos que responderam a esta questão, 161 (36.8%) frequentam o 10º ano de escolaridade, 135 (30.8%) o 11º ano e 142 (32.4%) o 12 º ano de escolaridade.

Instrumentos

Para a recolha de dados foi utilizada a escala European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ), que considera a natureza dinâmica do Cyberbullying, incluindo comportamentos de agressão e vitimização. Este instrumento é formado por 22 itens, dos quais onze avaliam a cybervitimização (e.g., Alguém fez comentários desagradáveis/ ou insultuosos usando a internet ou por mensagens) e onze avaliam a cyberagressão (e.g., Disse palavras desagradáveis/insultuosas sobre alguém para outras pessoas na internet ou por mensagens). O ECIPQ utiliza uma escala de Likert de 5 pontos: 0 = nunca, 1 = apenas, uma vez ou duas vezes, 2 = uma ou duas vezes por mês, 3 = cerca de uma vez por semana e 4 = mais de uma vez por semana. Em ambas as dimensões, os itens fazem menção a ações como dizer palavras desagradáveis, excluir ou espalhar boatos, usurpação de identidade etc., através de meios eletrônicos referentes a um intervalo de tempo (últimos dois meses).

Para calcular a prevalência do cyberbullying são considerados os papéis da participação de comportamentos e de repetição. Assim, as vítimas cibernéticas são identificadas com pontuações iguais ou superiores a 2 (uma vez por mês) em qualquer dos itens de vitimização cibernética e com pontuações iguais ou inferiores a 1 (uma ou duas vezes) em todos os itens de agressão cibernética. Os cyberagressores são aqueles sujeitos com pontuações iguais ou superiores a 2 (uma vez por mês) em qualquer dos itens da cyberagressão e igual ou menor que 1 (uma ou duas vezes) em todos os itens de vitimização cibernética. Por sua vez, os cyberagressores/cybervítimas são os sujeitos com uma pontuação igual ou maior que 2 (uma vez por mês) em qualquer um dos itens das duas dimensões (cyberagressão e cybervitimização).

Para a presente investigação recorreu-se à versão espanhola utilizada no estudo de del Rey et al. (2015) em que participaram 5679 alunos do ensino secundário de seis países europeus (Espanha, Alemanha, Itália, Polônia, Reino Unido e Grécia). Importa referir que, as propriedades psicométricas obtidas mostram um bom ajuste do instrumento numa amostra constituída por participantes de seis países europeus. Esse fato fornece robustez à conceção da bidimensionalidade do cyberbullying dada a sua confirmação em amostras de diferentes países, o que reforça a natureza bidimensional do construto teórico cyberbullying. A fiabilidade dos fatores foi avaliada pela medida de consistência interna alfa de Cronbach. Os fatores cybervitimização e cyberagressão apresentaram valores de alfa de Cronbach de 0.97 e 0.93 respetivamente, e a escala total apresentou valores de 0.96 (del Rey et al., 2015).

Os alunos responderam ainda a um Questionário de elaboração própria constituído com questões sociodemográficas (sexo, idade e ano de escolaridade) e questões sobre hábitos de utilização da internet.

Na secção seguinte descrevem-se os procedimentos éticos e de recolha de dados efetuados para a aplicação dos instrumentos acima descritos.

Procedimentos

Para a realização da investigação foi solicitada autorização à Direção-Geral de Educação (DGE) de Portugal, através do sistema de Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar. Obtida essa autorização foi solicitada autorização dos Diretores dos Agrupamentos Escolares, a quem foi explicado os objetivos do estudo, os procedimentos de aplicação dos instrumentos e o seu público-alvo, garantindo os procedimentos éticos convencionais, nomeadamente o anonimato, a confidencialidade das respostas e a voluntariedade na participação. Após concordância, foi pedido consentimento dos responsáveis legais/encarregados de educação dos alunos menores de 18 anos.

No processo de tradução e de retroversão foram seguidos os procedimentos recomendados por Hambleton (2001). A tradução inicial de espanhol para português foi efetuada pelos autores deste artigo e, posteriormente, sujeito a uma triagem por um psicólogo. Não foram identificadas diferenças relevantes entre a retroversão e a versão original, ficando assegurado que os itens traduzidos mantinham significado igual ou muito próximo aos itens originais. Procedeu-se ainda a um estudo piloto do instrumento em Português Europeu com uma amostra de 30 alunos equivalente à atual, que foram depois entrevistados, para aferir eventuais problemas na clareza do vocabulário empregue e na compreensão dos itens (Hambleton, 2001). Todos os respondentes referiram boa compreensão das questões apresentadas.

A recolha de dados ocorreu em contexto de sala de aula com a presença de um elemento da equipa de investigação apresentando aos participantes todas as informações a respeito do estudo, dos seus objetivos e que os dados seriam para uso exclusivo desta investigação. Durante a aplicação dos questionários, foi dada ênfase ao caráter voluntário da participação no estudo, ao anonimato e confidencialidade de todos os dados e à importância dos participantes serem sinceros nas suas respostas.

Análise Estatística

Procedeu-se inicialmente ao cálculo das medidas descritivas dos itens, médias (M), desvio padrão (DP), mínimos e máximos. A análise de simetria da distribuição das frequências (normalidade univariada) foi efetuada através da utilização dos coeficientes de skeweness (assimetria) e kurtosis (achatamento). Considerou-se que coeficientes de assimetria superiores a 3, em valor absoluto, e coeficiente de achatamento superior a 7, em valor absoluto, apresentavam problemas de desvio significativo da normalidade (Marôco, 2014). São ainda apresentados os valores de prevalência no envolvimento no cyberbullying, com base nos critérios em que assenta o instrumento.

Para analisar a validade fatorial do European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ), recorreu-se a uma análise fatorial confirmatória com recurso à metodologia de análise de equações estruturais. Para o modelo estudado foi utilizado o método de estimação Unweighted Least Squares a partir da matriz de correlações policórica, mais apropriada na situação em que as variáveis ordinais têm valores elevados de assimetria e curtose (Flora & Curran, 2004). O ajustamento do modelo foi avaliado através de índices comparativos de ajustamento, concretamente o χ2/df, GFI (Goodness of Fit Index), AGFI (Adjustment Goodness of Fit Index), RMSR (Root Mean Square Residual), PGFI (Parsimony Goodness of Fit Index). Valores de χ2/df < 2; GFI > 0.9; AGFI> 0.9; RMSR < 0.05 e PGFI> 0.8 são indicadores de uma boa adequabilidade do modelo (Byrne, 2001; Marôco, 2014). A qualidade do ajustamento local foi avaliada pelos pesos fatoriais (uma estimativa superior a 0.5 em valor absoluto indica uma associação forte) e pela fiabilidade individual dos itens. Utilizou-se o alpha de Cronbach de forma a estimar a fiabilidade de cada um dos fatores das escalas do instrumento.

Todas as análises estatísticas foram realizadas usando o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) (v. 27, SPSS Inc., Chicago, IL) e o Analysis Of Moment Structures (AMOS) (v.22, SPSS Inc., Chicago, IL).

Resultados

Hábitos de utilização da Internet

Dos 440 alunos inquiridos, todos têm internet em casa e computador e 439 participantes referem ter internet no telemóvel. Em relação ao local onde acedem à internet, 16 alunos referem aceder em todos os locais que haja ligação e 116 preferencialmente em casa. Quanto aos hábitos de utilização da internet, dos 440 alunos inquiridos 263 (59.8%) referem utilizar com mais frequência a internet no seu quarto e 157 (35.7%) na sala de estar.

Dos participantes 274 alunos mencionam ter começado a utilizar a internet maioritariamente (62.3%) na faixa etária dos 10 aos 13 anos. Todos os respondentes utilizam a internet diariamente e em todos os locais em que tenham acesso à mesma. Os alunos relatam utilizar mais frequentemente a internet para aceder a redes sociais (57.7%); para ver filmes (25.5%), para fazer pesquisas (24.3%) e para jogar (23%). Dos 444 alunos inquiridos, 98.9% referem utilizar redes sociais, sendo as mais utilizadas o Instagram (75.23%), seguido do Youtube (14.5%), Facebook (10.7%) e WhatsApp (9.1%).

Quanto ao tipo de informações que costumam colocar nas redes sociais, 83.2% colocam o nome verdadeiro, 86.6% postam fotografias, 49.3% a data de nascimento, 34.1% os seus interesses, 30.9%, colocam vídeos e apenas 6.8% dos participantes referem disponibilizar o seu número de telemóvel.

Prevalência do cyberbullying

Tendo em conta os critérios do European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire dos 440 participantes, 345 são indivíduos não envolvidos e 95 estão envolvidos enquanto atores desta problemática. Dos envolvidos no cyberbullying 19 são cybervítimas, 40 são cyberagressores e 36 cybervítimas/cyberagressores.

Estudo das características psicométricas do ECIQP

Na Tabela 1 apresentam-se as medidas descritivas média (M), desvio padrão (DP), skeweness (assimetria) e kurtosis (achatamento) dos 22 itens da escala de ECIPQ. Por análise dos valores de assimetria (sk) e achatamento (ku) podemos concluir que o pressuposto da normalidade não se verifica, uma vez que para todos os itens estes valores se encontram muito afastados dos valores de normalidade.

Tabela 1: Medidas descritivas e normalidade univariada

Tabela 1: Medidas descritivas e normalidade univariada

Nota: Elaboração própria.

Tabela 2: Matriz de Correlações policóricas dos itens

Tabela 2: Matriz de Correlações policóricas dos itens

Nota: Elaboração própria.

A associação entre os itens foi determinada pela matriz de correlações policórica, variando essas correlações entre 0.099 e 0.953, Tabela 2.

Análise da Consistência Interna

Tendo em consideração o formato Likert dos itens, o cálculo da consistência interna que procura analisar em que medida os itens que compõem o teste se apresentam como um todo homogéneo, foi realizado a partir da determinação do coeficiente alpha de Cronbach. Os resultados encontrados para a escala total foram 0.88. Para a subescala de cybervitimização. 0.79 e para a subescala de cyberagressão 0.85.

Análise Fatorial Confirmatória

Tal como referido anteriormente, as variáveis não verificam a condição de normalidade, deste modo, foi utilizado o método de estimação Unweighted Least Squares a partir da matriz de correlações policórica. O modelo bi-fatorial do ECIPQ (European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire) (Figura 1) ajustado a partir da matriz de correlações policóricas revelou uma qualidade de ajustamento boa, χ2/df = 0.64; GFI =0.965; AGFI =0.958; RMSR=0.034 e PGFI=0.794.

Na Tabela 3 apresentam-se as estimativas dos coeficientes não estandardizados e estandardizados dos itens. Como se pode constatar, no fator cybervitimização praticamente todos os itens, com exceção dos itens 4, 5 e 6, apresentam pesos fatoriais superiores a 0.5, o que é indicador de fiabilidade individual apropriada. Os itens que mais contribuem para o score do fator cybervitimização (CV) são os seguintes itens: 1 (0.736), 2 (0.825), 3 (0.694), 8 (0.755), 9 (0.624), 10 (0.707) e 11 (0.767). Quanto ao fator cyberagressão (CA) todos os itens apresentam pesos fatoriais muito superiores a 0.5 e os itens que mais contribuem para o score do fator são: 12 (0.767), 13 (0.740), 14 (0.770), 15 (0.759), 16 (0.867), 18 (0.806), 19 (0.869), 20 (0.748) e 22 (0.885).

Por análise dos resultados (Figura 1) podemos constatar uma associação forte entre os itens e os respetivos fatores (subescalas), pois a maioria dos itens apresenta pesos fatoriais elevados (λ≥0.5) e fiabilidades individuais adequadas (R2 ≥0.25). A covariância entre os fatores cybervitimação e cyberagressão é de 0.84.

Figura 1: Análise fatorial confirmatória do ECIPQ (European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire) numa amostra de estudantes do ensino secundário

Figura 1: Análise fatorial confirmatória do ECIPQ (European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire)
numa amostra de estudantes do ensino secundário

Nota: Elaboração própria.

Tabela 3: Valores não estandardizados e estandardizados dos itens

Tabela 3: Valores não estandardizados e estandardizados dos itens

Nota: Elaboração própria.

Discussão

As tecnologias de comunicação e informação são um elemento básico no desenvolvimento da vida diária dos adolescentes, no entanto podem converter-se em algo pernicioso quando usadas intencionalmente para causar danos a outras pessoas, levantando a uma situação de desequilíbrio de poder progressivo ao longo do tempo.

Embora seja uma problemática estudada recentemente, os dados parecem indicar que o cyberbullying é uma problemática com taxas de prevalência crescentes (Buelga, Cava et al., 2015; Ponte & Batista, 2019; Relva et al., 2022), portanto, entendemos que é necessário conhecer as suas formas mais comuns, bem como as variáveis associadas para poder prevenir futuras situações de cyberbullying, bem como intervir nas detetadas.

O principal objetivo deste estudo consistiu em analisar as qualidades psicométricas da ECIPQ numa amostra de adolescentes portugueses. A ECIPQ tem apresentado bons índices de precisão em outras investigações (Herrera-López et al., 2017; Sivabalan et al., 2020; Zhu et al., 2022) e que foram corroborados no presente estudo.

A análise da fiabilidade do ECIPQ, avaliada pelo alpha de Cronbach, revelou boa consistência interna quer na escala total quer nos seus fatores, tendo em consideração os critérios de Vaske et al. (2017). Foi ainda comprovada a estrutura fatorial do European Cyberbullying Intervention Project Questionnaire (ECIPQ) através da metodologia de análise de equações estruturais, a qual apresentou boas medidas de adequabilidade global e individual (associação forte entre os itens e os respetivos fatores) do modelo aos dados. Isto é especialmente relevante, tendo em vista que cada país tem os seus próprios hábitos no uso das tecnologias de informação e comunicação, com diferenças no tipo de midia e de redes sociais virtuais usadas.

Limitações, propostas para estudos futuros e implicações práticas

Reconhece-se o valor psicométrico que o ECIPQ apresenta ao avaliar o cyberbullying no papel do agressor, da vítima de vítima-agressor e estudantes não envolvidos. Uma vantagem deste instrumento (ECIPQ) consiste na possibilidade de aplicação a amostras de grandes dimensões, dada a sua extensão e facilidade de resposta, podendo assim ser usado não só na deteção do cyberbullying, mas igualmente para entender possíveis experiências/situações de cyberbullying das vítimas, agressores ou vítimas-agressores.

O presente estudo apresenta algumas limitações. O ECIPQ consiste num questionário de autorresposta o que, pode levar os indivíduos a responderem como é aceitável socialmente e não como se comportam na realidade ou experienciam determinadas situações online. Este instrumento não avalia o cyberbullying do ponto de vista dos observadores, o que pode ser importante para a deteção do mesmo.

Outra limitação do estudo é que os resultados se referem apenas a participantes do norte e centro de Portugal. Logo, outros estudos seriam necessários para confirmar com maior poder estatístico as propriedades psicométricas do ECIPQ e validar o seu construto de forma mais abrangente para a população portuguesa. Assim, em futuros estudos, é essencial a replicação do ECIPQ em amostras mais numerosas e diversificadas, que nos permitam, simultaneamente, fazer testes de calibração e validação dos resultados obtidos.

Face ao exposto, a presente investigação contribuiu para o processo de validação da escala para a população portuguesa, o que pode contribuir para conhecer a prevalência deste fenómeno em Portugal, o que é importante face à dificuldade que é em identificar o fenómeno de cyberbullying. Este instrumento pode ainda representar um contributo à investigação neste domínio, podendo relacionar-se os resultados que os sujeitos obtêm no ECIPQ com outras variáveis que ajudem a conhecer a complexidade deste fenómeno.

Atendendo também há necessidade de intervenção psicoeducativa e à prática da psicologia escolar, dispor de um instrumento operativo como ECIPQ para utilizar no contexto da escola pode facilitar a descrição dos níveis de prevalência do cyberbullying, tal pode ser de grande utilidade para os psicólogos escolares e outros atores do sistema educacional, no seu trabalho de prevenção do cyberbullying.

Contribuições

As pessoas autoras declaram que contribuíram nos seguintes papéis: A. P. M. contribuiu com a redação do artigo; a gestão do processo investigativo; a obtenção de fundos; recursos e apoio tecnológico e o desenvolvimento da pesquisa. D. F. contribuiu com a escrita do artigo; a obtenção de fundos; recursos e apoio tecnológico e o desenvolvimento da pesquisa. E. C. contribuiu com a redação do artigo; a gestão do processo investigativo; a obtenção de fundos; recursos e apoio tecnológico e o desenvolvimento da pesquisa.

Dados e material complementar

Este artigo tem disponível material complementar: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.8870

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